Quem convive com dor crônica na lombar ou no pescoço costuma conhecer bem a cena: deitar cansado, não achar posição, acordar várias vezes e levantar com a sensação de que a noite não rendeu. Muita gente trata isso como um detalhe, um efeito colateral inevitável da dor. A ciência mostra que não é detalhe, e que merece atenção no consultório.
Um estudo publicado no Journal of Pain Research avaliou 1.016 pacientes com dor crônica lombar ou cervical atendidos no departamento de ortopedia de um hospital universitário na Alemanha. O objetivo era simples: medir com que frequência a dor rouba horas de sono dessas pessoas e identificar quem está mais vulnerável.
Como o estudo foi feito
Os pesquisadores revisaram os dados de adultos com dor há mais de 12 semanas, atendidos entre 2009 e 2011. A idade média era de 57 anos e a intensidade média da dor, 6 em uma escala de 0 a 10. O sono foi avaliado por uma pergunta do questionário de Oswestry, ferramenta amplamente usada na avaliação de problemas da coluna, que registra quantas horas a pessoa consegue dormir por causa da dor, inclusive quando toma analgésicos.
Para isolar o efeito da dor na coluna, foram excluídos pacientes com outras condições que sabidamente atrapalham o sono, como apneia do sono, síndrome das pernas inquietas, transtornos psiquiátricos, fibromialgia e doenças da tireoide.
O que os números mostraram
- 42% dos pacientes dormiam menos de 6 horas por noite por causa da dor, mesmo usando analgésicos.
- Quase 20% dormiam menos de 4 horas por noite, uma privação de sono considerada grave.
- Outros 27% só dormiam bem com o auxílio de analgésicos.
- Apenas 30% relataram não ter o sono afetado pela dor.
A proporção foi semelhante entre quem tinha dor lombar (42%) e quem tinha dor cervical (41%). No pequeno grupo com dor nas duas regiões, apenas 16 pessoas, a privação de sono chegou a 62%, um dado que deve ser lido com cautela pelo tamanho reduzido da amostra.
Quem dorme pior
Idade e sexo não fizeram diferença: homens e mulheres, mais jovens ou mais velhos, foram afetados de forma parecida. O que pesou foi outra coisa.
- Intensidade da dor: quanto maior a nota de dor, pior o sono. A diferença foi clara entre quem tinha dor abaixo de 5 e quem tinha dor acima de 7.
- Grau de cronificação: quanto mais antiga, frequente e já tratada sem sucesso era a dor, maior a privação de sono. Foi o fator com associação mais forte.
- Dor persistente após cirurgia de coluna: pacientes com a chamada síndrome pós-laminectomia (dor que persiste ou retorna depois da cirurgia) tiveram sono significativamente pior do que os demais.
- Doença do disco intervertebral: hérnias e desgaste discal mostraram uma associação moderada com sono ruim.
- Contexto de vida: pacientes imigrantes também apresentaram mais privação de sono, o que sugere influência de fatores sociais e culturais na experiência da dor.
Já a estenose do canal vertebral, isoladamente, não se associou a pior sono nessa amostra.
Por que isso importa
A relação entre dor e sono parece funcionar nos dois sentidos. A dor atrapalha o sono, e dormir pouco, por sua vez, reduz o limiar de dor, altera a forma como o sistema nervoso modula os estímulos dolorosos e pode contribuir para a piora do quadro. Forma-se um ciclo: dor, noite ruim, mais dor.
Além disso, a falta de sono compromete a concentração, o humor, o desempenho no trabalho e a qualidade de vida como um todo. Por isso os autores concluem que o sono deve ser investigado ativamente em todo paciente com dor crônica na coluna, e não apenas quando a pessoa se queixa espontaneamente.
Os limites do estudo
É importante interpretar os resultados com equilíbrio. Trata-se de um estudo retrospectivo, feito em um único hospital, que mediu apenas a quantidade de horas dormidas relatada pelo próprio paciente, sem avaliar a qualidade do sono nem usar exames como a polissonografia. Ele mostra que dor e sono ruim andam juntos, mas não permite afirmar qual causa qual. Os próprios autores destacam que mais pesquisas são necessárias.
O que levar para a consulta
Se você tem dor na lombar ou no pescoço há mais de três meses, vale observar e contar ao seu médico:
- Quantas horas você dorme, em média, por noite.
- Se a dor dificulta pegar no sono ou faz você acordar durante a noite.
- Se você só consegue dormir com analgésicos.
- Como você se sente ao acordar e ao longo do dia.
Essas informações ajudam a montar um plano de tratamento que olhe para a pessoa inteira, e não só para o exame de imagem. Tratar a dor crônica também passa por cuidar do sono.
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação médica individualizada.
Referência
Artner J, Cakir B, Spiekermann JA, Kurz S, Leucht F, Reichel H, Lattig F. Prevalence of sleep deprivation in patients with chronic neck and back pain: a retrospective evaluation of 1016 patients. Journal of Pain Research. 2013;6:1-6. doi:10.2147/JPR.S36386
