PRP e células-tronco no manguito rotador: o que se sabe

Uma revisão científica reuniu os estudos sobre medicina regenerativa nas lesões do manguito rotador. Aqui você entende o que o PRP, os fatores de crescimento e as células-tronco já mostraram, e o que ainda falta provar.

Por que esse assunto importa

As lesões do manguito rotador (o grupo de tendões que ajuda a movimentar e estabilizar o ombro) são a maioria das lesões de ombro em adultos. Elas causam dor, atrapalham o trabalho e pioram a qualidade de vida. E estão ficando mais comuns com o envelhecimento da população.

Quando é preciso operar, o tendão costuma ser reparado por artroscopia, uma cirurgia feita por pequenos cortes, com uma câmera. Os instrumentos e as técnicas melhoraram muito. Mas, segundo os autores, as taxas de cicatrização não acompanharam essa evolução. Nas lesões grandes e massivas, a falha do reparo ainda é frequente.

Por isso, pesquisadores passaram a estudar a medicina regenerativa: estratégias que usam células ou substâncias biológicas para estimular a cicatrização natural do tendão.

O que os pesquisadores quiseram saber

Um grupo de pesquisadores da Universidade de Milão, na Itália, quis responder a uma pergunta simples: o que a ciência já mostrou sobre três abordagens regenerativas no manguito rotador?

  • Fatores de crescimento: proteínas que funcionam como sinais para as células crescerem e se multiplicarem.
  • PRP (plasma rico em plaquetas): um concentrado feito do próprio sangue do paciente, rico em fatores de crescimento.
  • Células-tronco: células que ainda não têm função definida e podem se transformar em outros tipos de célula, como as do tendão.

Como o estudo foi feito

Este é um artigo de revisão: os autores não fizeram um experimento novo. Eles reuniram e comentaram estudos já publicados, feitos em laboratório, em animais e em pessoas.

Sobre o PRP usado na cirurgia do manguito rotador, eles resumiram 13 estudos clínicos controlados, ou seja, que compararam pacientes com e sem PRP. Cada estudo teve entre 20 e 88 participantes. Parte deles era de ensaios randomizados, em que o sorteio decide quem recebe cada tratamento, o que torna a comparação mais confiável. Os dados de nova ruptura desses estudos foram somados para uma análise conjunta.

Os autores também analisaram 2 ensaios com injeções de PRP sem cirurgia e um estudo clínico com células da medula óssea.

O que o estudo encontrou sobre PRP e manguito rotador

Fatores de crescimento

  • Em laboratório e em animais (ratos, coelhos e ovelhas), vários fatores de crescimento mostraram resultados promissores na cicatrização do tendão.
  • Até a publicação da revisão, não havia nenhum estudo com esses fatores em humanos.

PRP durante a cirurgia

  • Os resultados dos estudos foram conflitantes: alguns mostraram benefício, outros não.
  • Na análise conjunta de todas as lesões, não houve diferença significativa na taxa de nova ruptura.
  • Nas lesões pequenas e médias, a nova ruptura foi bem menor no grupo que recebeu PRP.
  • Fora dois casos de infecção, nenhuma complicação do PRP foi relatada. Em um estudo, a infecção ocorreu em 12% dos pacientes com um tipo de preparo de PRP e em 0% do grupo sem PRP, diferença que não foi estatisticamente significativa.

Tipo de lesão

Nova ruptura com PRP

Nova ruptura sem PRP

Diferença significativa?

Todas as lesões somadas

31% (101 de 323)

37% (115 de 312)

Não

Lesões pequenas e médias

7,9%

26,8%

Sim

“Diferença significativa” quer dizer que a diferença dificilmente se explica pelo acaso.

Injeções de PRP sem cirurgia (tendinopatia)

A tendinopatia é o desgaste ou a inflamação crônica do tendão. Os autores encontraram apenas 2 ensaios randomizados, com resultados opostos:

  • Em 39 pacientes, duas injeções de PRP foram melhores do que o agulhamento seco (estímulo com agulha, sem injetar remédio) para dor, função e movimento ao longo de 6 meses.
  • Em 40 pacientes, uma injeção de PRP não foi melhor do que uma injeção de soro fisiológico em qualidade de vida, dor, incapacidade e movimento após 1 ano.

Células-tronco

  • Além da medula óssea, fonte já conhecida, estudos em laboratório isolaram células-tronco do próprio tendão, da bursa (uma bolsa que reduz o atrito no ombro) e de outros tecidos do ombro.
  • Nos animais, os resultados variaram: em um estudo com ratos, as células-tronco sozinhas não melhoraram a cicatrização.
  • Em humanos, havia um único estudo: 14 pacientes receberam células da medula óssea durante a cirurgia. A pontuação de função do ombro (escala UCLA) subiu, em média, de 12 para 31, e a ressonância mostrou o tendão íntegro nos 14. Um paciente voltou a ter dor e perda de força no ano seguinte.

O que isso significa para você

Segundo os autores, os dados sugerem que o PRP pode ajudar a cicatrização quando aplicado na cirurgia de lesões pequenas e médias do manguito rotador. Para lesões grandes, isso não ficou demonstrado.

Já as injeções de PRP sem cirurgia, as células-tronco e os fatores de crescimento ainda estão em fase de pesquisa. Os resultados são iniciais ou contraditórios.

Se você tem uma lesão no ombro, a melhor decisão depende do tipo e do tamanho da lesão, da sua idade e da sua rotina. Converse com seu médico antes de optar por qualquer tratamento.

Limitações: o que o estudo ainda não responde

  • Os estudos sobre PRP foram muito diferentes entre si: tipo de preparo, presença de glóbulos brancos, forma de aplicação, técnica cirúrgica e reabilitação.
  • A qualidade das evidências variou do nível 1 (mais forte) ao nível 4 (mais fraco).
  • Sobre injeções sem cirurgia, havia só 2 ensaios. Exercícios feitos ao mesmo tempo e o próprio efeito da agulha podem ter influenciado os resultados.
  • O estudo com células-tronco teve apenas 14 pacientes e nenhum grupo de comparação. Por isso, não dá para saber se o resultado veio das células.
  • Os achados sobre fatores de crescimento vêm de células e animais, o que não garante o mesmo efeito em pessoas.
  • A revisão foi publicada em 2014. Estudos mais recentes podem ter mudado esse cenário.

Perguntas frequentes

O PRP faz o tendão do ombro cicatrizar?

Os estudos são conflitantes. Somando todas as lesões, não houve diferença clara. Nas lesões pequenas e médias, a nova ruptura foi menor com PRP.

O PRP é seguro?

Nos estudos revisados, fora dois casos de infecção, não foram relatadas complicações.

Injeção de PRP sem cirurgia funciona para tendinopatia do ombro?

Ainda não há resposta. Os dois ensaios encontrados tiveram resultados opostos.

Células-tronco já são um tratamento para o manguito rotador?

Não como rotina. Na época da revisão, havia um único estudo em humanos, pequeno e sem grupo de comparação. Os autores pedem mais pesquisas.

Resumo em 3 pontos

  • O PRP aplicado na cirurgia foi associado a menos nova ruptura em lesões pequenas e médias do manguito rotador.
  • Injeções de PRP sem cirurgia, células-tronco e fatores de crescimento ainda precisam de mais estudos em humanos.
  • A decisão sobre o tratamento deve ser individual, junto com seu médico.

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica.

Autor: Dr. Lucas Campos.

Referência: Randelli P, Randelli F, Ragone V, Menon A, D’Ambrosi R, Cucchi D, et al. Regenerative Medicine in Rotator Cuff Injuries. BioMed Research International. 2014;2014:129515. DOI: https://doi.org/10.1155/2014/129515

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Dr. Lucas Campos

Ortopedia - Traumatologia - Medicina da Dor

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